domingo, 23 de janeiro de 2011

JAIRINHO (ELO)

Um servo calmo, sereno e tranquilo.


"Deus de amor fica conosco.Agora e para sempre, amém!"

Jairo Trench Gonçalves, conhecido no meio evangélico como Jairinho - para diferenciar do Dr. Jairo Gonçalves, seu pai - foi um jovem talento musical das décadas de 70 e 80. Quando nos conhecemos ele já tinha composto várias músicas inspiradoras de louvor a Deus. Sua amizade e seu exemplo de fé e seriedade para com as coisas de Deus são tesouros preciosos que guardo com carinho. No entanto, não creio ser a pessoa mais indicada para dizer em profundidade sobre ele. Talvez o Paulo César da Silva, o Paulão, do grupo Logos, e antigo companheiro de jornada no ELO seja quem possa traçar um perfil mais substancial da vida e da carreira desse nosso irmão querido. Assim mesmo, como uma homenagem póstuma, passo a narrar um pouco da história do Jairo, com uma visão muito particular, muito embora alguns dados biográficos sejam de conhecimento geral.
Jairo Trench Gonçalves era o único filho homem em meio a quatro meninas. Morou num bairro nobre da cidade de São Paulo, capital. Seu pai, Dr. Jairo Gonçalves, filho de portugueses, era nas décadas de 70/80 (provavelmente ainda é), um próspero empresário. Homem inteligente e muito crente, Dr. Jairo desde cedo, ele e sua esposa davam testemunho aos filhos de uma fé firme e inabalável.
Pelos idos de 1970, Jairinho conheceu a Cristo, entregando sua vida a Ele e tomando a decisão de servir a Deus de forma exclusiva. Partiu então para o Instituto Bíblico Palavra da Vida para preparar-se nos estudos teológicos. Completou os estudos em 1974. Ali, conheceu Hélia, com quem iria casar-se no início de 1975, em São Paulo. Foi no início deste ano que o conheci, pois estava chegando para os meus estudos naquele Instituto Bíblico.
Quando cheguei ao então Instituto Bíblico Palavra da Vida, em Atibaia, São Paulo, em 1975 para iniciar meus estudos teológicos, minhas expectativas para com a Organização Palavra da Vida eram as melhores. Através dos acampamentos por ela promovidos, e dos empreendimentos evangelísticos, notava a consistência entre a fé e a prática dos seus missionários. Eram pessoas alegres, convictas de sua fé cristã, e dispostas a proclamar o Reino de Deus pelo Brasil, não importava a ocasião e o local. Parte desta imagem deve-se muito à musicalidade dos missionários e de outras pessoas que os ajudaram a formar grupos vocais de boa qualidade que, com simplicidade, proclamam até hoje a mensagem do evangelho.
Pelos idos de 1970, enquanto o mundo jovem não cristão era sacudido constantemente pôr grupos musicais revolucionários, conquanto sua mensagem fosse a imoralidade sexual e a experiência com drogas, como The Beatles, ainda gravando, Led Zeppelin, iniciando a carreira, Yes e Emerson, Lake and Palmer, e tantos outros, a Igreja evangélica no Brasil dava ainda passos modestos na criação de melodias próprias e elaboração de arranjos musicais de qualidade. Poucos eram os discos gravados por evangélicos. As igrejas dispunham ainda de grupos corais, organistas e pianistas muitos bons para os cultos. No entanto, as melodias eram as produzidas na América do Norte e as clássicas da Reforma do século XVI, vindas da Europa. Não se viam grupos vocais pequenos de qualidade. Alternavam-se grupos corais e quartetos, em geral, masculinos, que cantavam músicas tradicionais, na maioria hinos com algumas variações no arranjo. O grupo de oito pessoas escolhidas pelo maestro Dick Torrans, missionário da Organização Palavra da Vida, recém chegado dos Estados Unidos, causou grande impacto, pois cantavam músicas próprias – Jairinho compôs "Nos montes eu vou, com Cristo eu estou, nos vales campinas, com meu Salvador..., etc." e outras - , na sua maioria, com melodias lindas e vozes muito boas. Este grupo apresentava-se nas praças, nos ginásios de esporte, em pequenas ou grandes igrejas, sempre com sorriso nos lábios e muita espiritualidade. Deste grupo maravilhoso, Paulo César da Silva, o Paulão, e Jairo Trench Gonçalves, o Jairinho, viriam a formar anos mais tarde o Grupo Elo, juntamente com Nilma, esposa de Paulo, e Nancy, esposa do maestro Dick Torrans, que era quem provia o grupo de arranjos vocais e instrumentais, participando, inclusive da execução destas músicas ao piano.
Nos primeiros meses de 1975, já estudando no Instituto Bíblico Palavra da Vida, hoje Seminário, conheci o Jairinho. Vi-o apenas de longe, correndo de um lado para o outro na Estância Palavra da Vida, preparando-se para seu casamento com a doce Helia, que iria realizar-se dias depois na cidade de São Paulo, na Igreja dos Irmãos Unidos. Foi uma bela cerimônia, embalada por lindas melodias escolhidas a dedo por ele, inclusive com uma das mais belas canções evangélicas para casamento composta pelo Jairo: "Deus de Amor fica conosco, agora e para sempre amém. Dá-nos a bênção de sermos para sempre fiéis a Ti...etc." Aliás, após esta ode ao matrimônio cristão, muitos outros compositores evangélicos o imitaram, fazendo músicas especiais para seus próprios casamentos.
Nossa amizade intensificou-se seis meses depois quando Jairo tornou-se missionário da Palavra da Vida. Sua intenção era prover a Palavra da Vida de mais música, abrir espaços, ter novos horizontes. E eu queria fazer parte deste projeto, mesmo tendo que despender grande parte do meu tempo nos estudos teológicos. Jairo era uma pessoa sensível, de grande musicalidade, capaz de formular idéias, compor poesias simples, sem ser comum, ingênua ou mesmo fútil.
Passava horas com seu violão, ou mesmo diante do piano, cantarolando até que a melodia viesse. Jairo também era um perfeccionista. Utilizou todos os recursos que possuía, para munir-se de instrumentos musicais e outros equipamentos para produzir música de qualidade.
No início, muito tímido, não quis ferir susceptibilidades, principalmente do presidente da Organização Palavra da Vida, Haroldo Reimer, de notória inflexão quanto a certos aspectos puramente acessórios na música, segundo a minha opinião, como a utilização da bateria. Haroldo era ferrenho adversário da postura musical dos Vencedores Por Cristo, que naquela época introduziram vários instrumentos ainda não bem aceitos pela comunidade evangélica brasileira. Jairo tomou seus cuidados. E, o primeiro disco lançado por ele, Calmo, Sereno e Tranqüilo, cujo título é o mesmo da música que compus, tinha apenas violão - um Ovation - novidade na época, pelo menos para mim, e, quando muito, um contrabaixo. Ouvimos juntos, dentro de seu automóvel, a gravação ainda sem mixagem. Mostrou-a ao Paulo também, pois queria saber nossa opinião a respeito dos arranjos, das letras, enfim sobre toda a produção, para que nada viesse a comprometer seu primeiro projeto com o selo Palavra da Vida, e que dependia da aprovação do Haroldo Reimer.
Haroldo enfim aprovou, e aquele primeiro disco teve boa repercussão no meio evangélico. Escolhemos a capa. Inicialmente, pensamos num barco no meio do oceano em maré calma, flutuando sob um lindo sol. Depois, com mais calma, achamos que deveríamos inovar. Fazer algo que chamasse a atenção. O pergaminho como moldura e a figura de um velho carregando seus feixes contrastava com o título, dando o impacto que queríamos. Deu certo. Era um disco de arranjos simples, letras simples, escrito sobre um pergaminho, incentivando a meditação.
Depois disto, Jairinho investiu tudo num pequeno grupo de vozes para ajudar o Haroldo em suas viagens evangelísticas. Estivemos juntos por oito meses, dos quais, cantava conosco e pregava nas igrejas por onde íamos. Ao final do ano de 1975 desmembramo-nos, e Jairo, queria mais liberdade para compor e acompanhar a evolução musical da época e desta forma, para fazer isto, viu que seu espaço era muito restrito na Organização. Juntamente com o maestro Dick Torrans e Paulo César da Silva formaram o Elo. A partir daí vi o Jairo sorrir. Estava livre para sonhar. Foi para São Paulo, montou todo um aparato para gravação e impressão, que funcionava no mesmo prédio do Mapa Fiscal Editora, de propriedade de seu pai. Convidou-me para ajudá-lo, mas Deus direcionou minha vida para a cidade de Brasília e, daí nos vimos apenas mais umas três vezes.
Ali, em Atibaia, depois em São Paulo, Jairo gravou vários discos. O primeiro foi Nova Jerusalém. Um deles, inclusive, com mixagem nos Estados Unidos. Saiu em campanhas evangelísticas, tendo seu pai por pregador. Participou do mega evento Geração-79 como monitor e conferencista. Estava à pleno vapor, quando em 1981 veio a falecer em um desastre de automóvel na estrada vicinal que dá acesso à Estância Palavra da Vida, em Atibaia. Morreu jovem. Ele sua esposa Helia e seu filho mais novo, ainda bebê, André.
Deixou-nos grandes saudades, pois sua alegria, seu bom humor, sua espiritualidade, foram plenamente refletidas nas melodias e letras que nos legou. A música Um Dia demonstra, como poucas, a maneira simples e harmoniosa de Jairo em narrar as coisas espirituais de forma profunda, porém acessível. Foi seu testemunho de fé gravado para sempre. Outras, marcaram circunstâncias em que Deus lhe falou muito de perto, como seu próprio casamento, cuja melodia acima já mencionei, e o ambiente dos acampamentos da Palavra da Vida, registrado na melodia Nos montes eu vou, com Cristo eu estou, nos vales, campinas, com meu Salvador...".
Jairo teve opositores. Foram poucos. Pessoas que reconheciam seu talento, contudo, acusavam-no de viver um ministério inautêntico, pois muito de seu sustento vinha de contribuições de seu pai. Mas tinha ele alguma culpa por ser filho de uma pessoa de posses e que investia no seu ministério? Aliás, é bom que se diga, Dr. Jairo Gonçalves, mesmo sendo um homem aquinhoado, sempre consagrou o que possuía a Deus. Quantas e quantas vezes o Dr. Jairo saiu pelo interior de São Paulo, com sua Veraneio do ano, repleto de bíblias e folhetos para disseminar o evangelho da graça de Deus. Quantas vezes saía de São Paulo, afastando-se de sua concorrida agenda de negócios e como Juiz do Trabalho para dar aulas no Instituto Bíblico Palavra da Vida, hoje Seminário.
Os domingos de pai e filho, enquanto Grupo Elo, foram dedicados à disseminação do evangelho, pois agora saíam juntos. O filho cantava, e o pai pregava. O Jairinho tinha dinheiro sim, mas fez deste um instrumento para servir a Deus. Poderia ter jogado tudo para o alto e viver tranqüilamente em qualquer lugar do planeta. Mas julgou ser mais importante fazer resplandecer o dom que Deus havia lhe dado: o de Levita.
Suas músicas são melodiosas, e as letras refletem a fé de quem amou profundamente a Deus. Procurou incansavelmente o aperfeiçoamento do seu ministério, gravando no exterior, formando um grupo coeso na espiritualidade e na musicalidade. Até hoje, jovens músicos que conheço manifestam sua admiração pela obra deste criativo servo levita de Deus.
Deixou-nos prematuramente. O Senhor sabe o porque. Dr. Jairo e sua esposa criam até hoje os outros dois filhos de Jairinho. O mais velho, também chama-se Jairo, e uma menina, Melissa. Ao meu filho mais velho dei o nome de André Estevão, cujo primeiro prenome é uma homenagem ao Andrezinho, filho mais novo de Jairo e Hélia, que faleceu no acidente automobilístico que os vitimou.
A Galeria dos artistas evangélicos possui um local de destaque para este que, sem dúvida, tinha talento, fé, e um grande amor por Jesus.
A quem honra, honra.

Ivan Cláudio Pereira Borges

JANIRES (REBANHÃO)

Um cidadão da cidade celestial

"Foi há muito tempo atrás,Tempos que não voltam mais.Eu, com a cabeça de menino,corpo e asa de passarinho."

Conheci Janires em 1979. Ele aparecia de vez em quando nas reuniões de sexta-feira da mocidade de nossa Igreja em Copacabana, no Rio. Era um tipo meio esquisito para os padrões vigentes de beleza e status: magro, esguio, moreno, cabelos desgrenhados, usando um desbotado macacão jeans. O sorriso inconfundível, os dentes muito brancos, como que a dizer "você não me esconde nada", revelava a experiência e o jogo de cintura dos seus tempos de boêmia, e dizia alguma coisa diferente, muito forte, muito boa, algo realmente novo!
Trazia sempre uma música de louvor a Jesus, ou uma palavra, às vezes dura, que nem os pastores ou os líderes daquele grupo se arvoravam a dizer. Um sujeito diferente.
Ele vinha de São Paulo, e da mesma forma com que aparecia, sumia: ficava um tempão sem aparecer. Carregava uma bolsa de couro cru, bem surrada. Dentro dela uma Bíblia daquelas de capa mole, uma muda de roupas e um monte de cópias em fitas cassete de um tal Rebanhão, tipo feitas em estúdio de fundo de quintal, que faziam o maior sucesso no meio da rapaziada.
A capa da fita, em papel cartão acetinado com a impressão em dourado da silhueta de uma pastor com um cajado na mão e uma ovelha ao seu lado, dizia tudo. Na aba menor os títulos: "Jesus, Filho do Homem", "Baião", "Casinha", "Arco-Iris" eram uma pequena amostra da genialidade do seu compositor.
A fita era absolutamente revolucionária. O repertório, eclético: uma mistura original de rock rural, tendendo para o progressivo, com canções bucólicas carregadas de fraseados poéticos.
Nessa época a MPB experimentava um movimento de renovação decorrente da abertura política. A música de Janires revelava influências de Zé Rodrix, Taiguara, Ivan Lins, 14 Bis, Raimundo Fagner, Gonzaguinha, Mutantes, para não falar de Pink Floyd, Beatles, Genesis e tantos outros que naturalmente influenciaram a nossa geração.
É importante falarmos do contexto cultural e musical que estávamos vivendo, para nos situarmos no tempo e no espaço. Desde o início dos anos setenta, algumas coisas começaram a mudar também nos meios eclesiásticos.
Até então, nas igrejas cantavam-se os hinos dos hinários tradicionais. O órgão e o piano eram os instrumentos permitidos. O violão acabava de conquistar sua posição nos meios jovens. Guitarra, baixo, sintetizador e bateria? Proibidos na grande maioria das igrejas. Vencedores Por Cristo, Semente, Elo, Logos, Jovens da Verdade e alguns outros grupos de expressão foram os embaixadores da nova música evangélica, introduzindo com sabedoria e maestria uma nova concepção musical.
Janires foi um dos mais importantes representantes da segunda fase desta renovação musical. Falava das coisas comuns da vida. Ironizava os políticos corruptos, os comerciais da TV, parodiava filmes e novelas, falava das realidades, de sonhos, fracassos e frustrações, do pecado e da miséria resultante, para apresentar, em fulgurante contraste, a estonteante luz, a estupenda graça e a infinita paz de Jesus Cristo, que transformou a sua vida, de um quase marginal e presidiário, em um homem livre para viver a plenitude de uma vida totalmente regenerada.
O Rebanhão era a cara do Janires. Começou ainda em São Paulo. A primeira formação, tomara que eu não esqueça ninguém para não ser injusto, tinha, entre outros, a Lurdinha, o Mike e o Carrá. Então ele resolveu se mudar para o Rio. Acho que foi Jesus quem mandou. Chegou com tudo o que ele tinha: a bolsa, uma mesa de som de 24 canais, um monte de caixas e amplificadores, e uma disposição incrível de tocar e cantar Jesus Cristo onde quer que fosse. Chegando ao Rio, fez logo seu primeiro discípulo: o Pedro Braconnot, atual e incansável líder do Rebanhão, discípulo de Jesus Cristo. Um dia ele e o Pedro foram assistir ao nosso humilde e esforçado ensaio, e nos convidaram para acompanhá-los. Fomos, Kandel Rocha na Bateria, André Marien na guitarra e eu, Paulinho Marotta, no baixo. Assim nasceu a segunda formação do Rebanhão. Logo depois veio o Carlinhos Félix com seu brilhantismo, para completar a formação. Tocar no Rebanhão foi uma das mais fantásticas experiências da minha vida. Janires era absolutamente inusitado! Todos tinham liberdade para criar, e apesar de nossas muitas limitações, aconteciam coisas interessantes. Essa música nos abriu espaços e muitas oportunidades para pregar o Evangelho em praias, praças, teatros, rádios (não posso esquecer do Paulo César Graça e Paz e da Radio Boas Novas em Vila Isabel, no Rio, onde tudo começou), TV, jornais, coretos, estações, e ruas desse Brasil afora. Muitas pessoas ouviram o Evangelho da boca do Janires, e algumas delas tiveram suas vidas transformadas pelo poder do Evangelho de Jesus Cristo.
Três anos depois, Janires sentiu-se direcionado a mudar para Belo Horizonte, onde começou a servir na MPC, ao lado do Marcelo Gualberto, do Carlinhos Veiga e tantos outros. Juntou-se à equipe MPC e formou a Banda Azul, ao lado do Dudu Batera, Dudu Guitarra e Moisés. É claro que essa separação foi dolorosa para nós, creio que para ele também, uma vez que o Rebanhão foi criação sua e se identificava tanto com ele.
Janires era fervorosamente apaixonado por Jesus. Ele tinha visto a miséria de perto. Desde cedo aprendera a conviver com a marginalidade em Brasília. Ganhava a vida como músico; logo se envolveu com as drogas, e o tráfico acabou se tornando um meio de vida. Preso em flagrante, talvez por ser primário, foi transferido para o Desfio Jovem de Brasília, onde teve contato com o Evangelho de Jesus Cristo. Lá, debaixo de muita oração e da disciplina e do amor daquela equipe, comandada por uma serva de Deus, teve uma experiência com Jesus. Ele não contava muitos detalhes dessa época, mas que tinha um coração ainda muito duro e abandonou a fé e voltou para as drogas. Algum tempo depois, agora já em São Paulo, ficou internado no Desafio Jovem, onde finalmente rendeu-se aos pés do Senhor Jesus. Sabia que ele não fizera nada de bom na vida para merecer que alguém morresse por ele. Quando entendeu que o próprio Filho de Deus morrera por gente como ele, não teve outro recurso que não entregar-se com todas as suas forças a Jesus.
Desde então ele descobrira o amor de Jesus, e se apaixonara por Ele, a ponto de dedicar a sua vida somente para Ele.
Janires era homem de oração. Sentia as dores dos que sofriam com as drogas, com o abandono, com a miséria, com a falta de perspectiva. Era lúcido e imparcial com os orgulhosos, os que se julgavam superiores. De raciocínio claro, tinha sempre uma resposta objetiva, às vezes mordaz, mas incrivelmente oportuna.
Tinha a sobriedade e a firmeza de caráter de um homem experiente, e a vivacidade de quem tinha alguma coisa muito nova e boa pra contar.
Considerava-se totalmente dependente da graça de Deus. Dedicava grande parte do seu tempo ao jejum, à oração e ao estudo da Bíblia. Gastava tempo prostrado diante de Deus, intercedendo pelas pessoas ao seu redor.
Janires não era um homem comum. Ele não se preocupava em casar, constituir família, arrumar um bom emprego, comprar isso ou aquilo, essas coisas que têm tanta importância para nós. Vivia do que produzia. Sua música, seu artesanato: camisetas e impressos em silk-screen. Frequentemente recebia ofertas, às vezes muito boas, mas sempre achava alguém que precisasse mais do que ele daquele dinheiro. Assim como recebia, dava generosamente.
Uma vez, dentro do ônibus, um policial revistando os passageiros, mandou que abrisse a bolsa. Ele aproveitando a oportunidade, falou para o guarda e para os outros passageiros da única arma que ele carregava, que tinha transformado a sua vida: a sua Bíblia. Outra vez fingiu-se de louco, gritando "Jesus, Jesus!" para afugentar marginais que importunavam duas moças em Copacabana. Não tinha medo da "barra pesada". Falava de Jesus para qualquer um, em qualquer lugar. Não perdia oportunidades para contar que Jesus tinha transformado a sua vida.
Janires foi inicialmente rejeitado e até odiado pelas lideranças eclesiásticas que viam nele uma aparente ameaça, por ser tão diferente do comum, mas ganhou o respeito e admiração de todos os que puderam conhecê-lo de perto, por causa da autenticidade de seus atos e de sua fé genuína em Jesus Cristo, e dos frutos que produziu.
Circulava livremente por todas as vertentes denominacionais, desde a tradicional, até a mais renovada, e tinha grande simpatia dos grupos católicos carismáticos. Janires valorizava a unidade da igreja, respeitando as diferenças e peculiaridades de cada grupo. Por isso ganhou o respeito e a simpatia de muitos.
Tinha um impressionante domínio do público. Falava para quarenta mil pessoas com a mesma facilidade com que apresentava Jesus em um diálogo pessoal. Todas as suas apresentações seguiam uma lógica. A seqüência das músicas que cantava era concluída com uma prédica inteligente, poderosa e inspirada, totalmente bíblica, cheia de analogias culturais e temporais que prendiam a atenção dos ouvintes para o ponto central: a confrontação com a realidade de Jesus Cristo!
Em janeiro de 1988, foi chamado pelo Senhor Jesus para a Glória, em um trágico acidente, quando voltava do Rio para Belo Horizonte. De bens materiais não deixou muita coisa, além da velha bolsa e do violão Ovation. Mas um imenso legado, de vidas transformadas pelo seu testemunho e pelo seu exemplo, e pelas mudanças que imprimiu na história da música evangélica contemporânea.
Eu, que escrevo estas palavras, tive o privilégio de conviver durante cinco anos com o Janires. Posso dizer que ele, pelo seu jeito de viver e ver a vida, influenciou tremendamente a formação da minha fé, da minha atual escala de valores, da minha concepção do mundo e do Reino de Deus. Digo isso, não para exaltar a memória de um homem, mas para que Jesus Cristo seja glorificado!

Paulo Marotta